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Os meninos malabaristas nas ruas do Brasil

Na semana passada, quando eu e minha esposa retornávamos de carro para casa, deparamo-nos com um menino que fazia malabarismo no farol. Infelizmente, nada mais comum nas ruas de nossas grandes cidades.

Mas dessa vez, o automatismo com o qual esse menino realizava sua tarefa de equilibrar bolinhas me chamou a atenção. Ele fazia movimentos rápidos, extremamente precisos. Mas seu rosto praticamente imóvel e olhos vagos demonstravam sua exaustão com aquele ritual repetido ao infinito.

O automatismo do menino quebrou o meu, aquele sentimento ruim com que naturalizamos as coisas erradas que vemos por aí pelo simples fato de que acontecem muitas vezes. E me perguntei: por que ele simplesmente não pede o dinheiro?!

Para mim, não faz muita diferença na minha disposição a dar esmolas o fato da pessoa estar fazendo malabarismos ou não. Mas se menino o faz, deve ter algum bom motivo. E talvez o motivo seja bem básico: ele deve conseguir mais dinheiro oferecendo esse “entretenimento” aos passantes. Mas por que?

Primeiro, preciso dizer que, apesar de funcionar, acho essa motivação altamente enganadora. E isso porque quem dá dinheiro obviamente não o faz para recompensar as qualidades artísticas do malabarista. Tanto é assim que as pessoas que dão dinheiro nos faróis não dão apenas aos “bons” malabaristas, deixando os “ruins” à míngua. Mas então por que funciona?

Porque gostamos de acreditar que estamos dando nosso dinheiro em troca de alguma coisa. Neste caso da esmola, não importa muito o que exatamente nos está sendo oferecido. Pode ser qualquer coisa que mostre que a pessoa que nos pede está se esforçando pelo nosso dinheiro.

Depois da Idade Média, a modernidade nos trouxe a ideia da meritocracia, ou seja, tudo o que alcançamos deve ser uma consequência de nosso esforço pessoal. Ainda que em uma sociedade altamente desigual nas oportunidades que oferece a seus membros seja bem difícil acreditarmos nessa falácia, o fato é que nossa sociedade, talvez até para esconder seu fracasso com o ideal de “igualdade”, está sempre novamente nos convidando a acreditar na tal da meritocracia.

Bom, mas o que isso tem a ver com o menino que joga bolinhas em troca de umas moedas? Ora, nossas sociedades capitalistas são baseadas em “relações de troca”. Para "merecer" meu dinheiro, o menino deve me oferecer algo, caso contrário, ele estaria ganhando um dinheiro “sem esforço” (como se simplesmente estar na rua pedindo não fosse esforço suficiente...). Com as bolinhas, ele nos “convence” que não é vagabundo e que está literalmente suando a camisa pelo nosso suado dinheirinho. Tudo se passa como se não se pudesse mais pedir por necessidade e dar por compaixão, ou mesmo por qualquer outro sentimento menos nobre como, por exemplo, livrar a cara da elite que quer se convencer que está fazendo a sua parte pelo nosso “belo” quadro social. Na modernidade capitalista, são as relações de troca que favorecem a empatia, a caridade, e outras ficções de outros tempos.

 


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.