O que torna um homem autor de violência contra a mulher?

Você já deve ter ouvido que violência gera violência, não é? Mas isso faz algum sentido psicológico? Certa vez, atendi uma mulher enredada em um relacionamento totalmente abusivo. Ela me contou que, quando ela era pequena, testemunhava constantemente seu pai agredindo sua mãe. Contudo, longe de me soar como uma explicação para suas vivências atuais, aquilo me colocou uma pergunta: mas, afinal, se ela foi forçada a crescer com um homem violento (seu pai), percebendo claramente o quanto ele machucou física e psicologicamente sua mãe e ela própria, ela não deveria ter desenvolvido uma espécie de “antídoto” contra relações desse tipo? Será que pessoas que sofreram ou testemunharam violências na infância não deveriam ser capazes de perceber com mais facilidade quando seus relacionamentos da fase adulta se tornam perigosos? Afinal, se elas passaram por isso na infância, não iriam querer repetir o sofrimento quando adultas, certo?

É claro que, nos melhores casos, é exatamente isso o que acontece. Contudo, com base na minha experiência de atendimento, eu diria que, infelizmente, não é a maioria das pessoas que consegue, sozinha, fazer de sua dor uma motivação para tornar-se mais precavida em relação às violências do mundo. Normalmente, os resultados de violências contínuas na infância são um pouco mais complexos.

Quando fui estudar um pouco a questão, deparei-me com esse fato intrigante: meninos que veem suas mães sofrendo violência de seus pais têm três vezes mais chances de se tornarem agressores com suas próprias esposas quando crescerem. E o mesmo vale para as meninas: aquelas que testemunham suas mães sofrendo violência de seus pais também possuem três vezes mais chance de se tornarem vítimas de companheiros agressores. Nesse ponto, minha pergunta inicial se recolocou: por que, ao invés de se tornarem mais capazes de não reproduzir (no caso dos meninos) ou de escapar (no caso das meninas) de situações violentas no futuro, essas crianças têm uma tendência maior ou a se tornarem maridos agressores ou a cair nas garras de companheiros violentos?

A resposta a essas aparentes contradições é que a violência é um comportamento aprendido. Não é um fator biológico. Desse modo, não podemos nem falar de um instinto agressivo inerente aos homens, algo que fizesse ser “natural” agredir mulheres; e nem em um masoquismo estrutural das mulheres, algo que as condicionasse a aceitar tais violências. Na verdade, essas crianças estão aprendendo com seus pais, suas mães e toda a nossa cultura machista a como serem homens e mulheres. Estão aprendendo que, para ser homem, é preciso agir com violência e que, para ser mulher, é preciso aceitá-la.

A família é uma das primeiras, senão a primeira instância mediadora entre a sociedade e o indivíduo. Por isso, é normalmente por meio dela que o machismo começa a moldar as subjetividades em formação no seio da família. Nossos parentes têm aqui a função de reproduzir em escala microscópica os macropreconceitos sociais. E os efeitos do que aprendemos na mais primitiva infância costumam ser gerais e duradouros.

É claro que isso não significa que um homem violento, por exemplo, será violento para sempre. Quase nada na subjetividade humana é definitivo. Mas significa que essas mudanças não são fáceis.

E é claro também que com isso não estou defendendo que existe um modo universal de se tornar violento. Ao contrário, os caminhos são sempre pessoais e, portanto, variam muito. No caso de homens agressores, já atendi situações que envolviam, por exemplo: o modelo de um pai autoritário; uma mãe opressora que causou uma percepção profunda em seu filho de que toda mulher é violenta e que, portanto, quando crescer, ele precisará oprimir para não ser oprimido; ou ainda aquele que inveja as mulheres por serem constantemente objetos de desejo dos outros, algo que ele próprio não era, entre outros.

Desse modo, tentar traçar um perfil psicológico típico do agressor é um erro. Uma pessoa que faz uso problemático de álcool e que volta bêbado para casa pode se tornar um marido agressor tanto quanto aquele homem considerado “pai de família honrado e trabalhador”. O agressor “típico” não cabe em estereótipos e, além disso, não tem classe social, estando a violência disseminada entre ricos e pobres.

Mas, se quisermos abordar o fenômeno de modo mais geral, penso que é possível compreendermos a violência como uma linguagem. E uma linguagem aprendida de pessoas próximas, que por sua vez reproduzem um modelo social de desigualdade entre os gêneros. Os parceiros em um relacionamento se comunicam através dessa linguagem. Comunicam lugares de poder, por exemplo. Dizem coisas para além dos tapas e xingamentos, como sentimentos de posse e a desconsideração do outro enquanto sujeito. Para as pessoas inseridas em contextos agressivos, a violência vai se tornando a forma predominante delas se relacionarem com os outros. E dessa maneira a violência vai também passando de geração em geração.

Se quisermos ajudar as pessoas envolvidas nessas situações, nós precisamos saber ler essa linguagem, entender essa fala oculta que a violência comunica de modo torto. É um trabalho que se parece com decifrar um código, uma mensagem cifrada que, uma vez compreendida, pode trazer enormes ganhos para todos os envolvidos na relação violenta.


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.