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O que o Pokémon Go revela de nós mesmos?

A mais nova sensação entre crianças, adolescentes e vários adultos é o jogo para celular chamado Pokémon Go. Se você não o conhece, a grande inovação trazida pelo aplicativo é a característica de “realidade aumentada”. Ao invés do jogo ocorrer em uma dimensão completamente virtual, no Pokémon Go você (isso mesmo, você e não um personagem dentro do jogo) sai por aí caçando esses simpáticos monstrinhos que aparecem sobrepostos à imagem do mundo real que a câmara de fotos do seu celular captura.

Para a primeira geração de pais cujos filhos cresceram inteiramente conectados, Pokémon Go aparece com a promessa de arrancar as crianças do sofá. Uma mudança de paradigma que poderia fazer gamers cada vez mais ensimesmados a sair do quarto e se interessar novamente pela vida ao ar livre. Mas será mesmo? O que esse joguinho revela sobre nós mesmos e sobre a subjetividade em transformação nesse início de século totalmente revolucionado pela internet e pelas redes sociais?

Em primeiro lugar, eu preciso te convencer de que algo tão banal quanto um divertimento eletrônico pode significar algo mais profundo do que aparenta. Nesse ponto, acho que a intelectualidade costuma ser preconceituosa com a arte e a cultura pop. Afinal, não é só a partir de Michelangelo, Picasso e James Joyce que podemos extrair sentidos para pensar o mundo no qual suas obras foram produzidas. Todo produto da imaginação opera uma mediação entre o sujeito e o mundo. É claro que algumas delas são mais complexas e sofisticadas, ou seja, são mais capazes de gerar múltiplos sentidos que ajudam a pensar. Mas, mesmo as produções imaginativas mais simples e mais clichês podem ser imensamente reveladoras de formas cruciais de metaforizar o mundo.

Sendo assim, devemos começar lembrando que Pokémon Go só foi possível graças às tecnologias de georeferenciamento do Google Maps e às infinitas informações pessoais que gratuitamente oferecemos às grandes corporações da internet em troca de produtos melhores e mais personalizados. Pokémon Go é, portanto, um dos pontos de revelação de um modo de concebermos a individualidade que está mudando rapidamente.

Personagens como o Super-Man e a Mulher-Maravilha, por exemplo, propunham uma divisão muito bem estabelecida entre o público e o privado. Para a sociedade são heróis mas, no mundo privado, são pessoas até sem graça. Com isso, eles ajudaram legiões de jovens medianos a lidarem com uma sociedade que pregava que só aqueles que se destacavam, que se diferenciavam dos demais, é que tinham algum valor. Aquele jovem “normal” poderia olhar para o Homem-Aranha e pensar: todos acham que eu sou como Peter Parker. Mas eu também posso surpreender e desenvolver superpoderes. É uma espécie de mito do gênio incompreendido moderno e massificado.

Mas, a partir da internet, e principalmente depois das redes sociais, a subjetividade está mudando, pois o público e o privado estão cada vez mais se confundindo. Ou melhor, cada vez mais, o privado invade o espaço público, com as pessoas expondo detalhes íntimos de suas vidas a qualquer um que queira ver.

É claro que há aqueles que marcarão encontros com os amigos em parques para jogar Pokémon Go. Li inclusive uma notícia que falava do uso do jogo para fomentar que crianças hospitalizadas saiam de seus leitos, incentivando sua mobilidade. Sempre haverá, portanto, usos criativos e inovadores.

Mas não podemos deixar de perceber que talvez a tendência majoritária seja de recrudescimento dessa invasão do público pelo privado na medida em que Pokémon Go pode até conseguir retirar pessoas sedentárias de suas casas, mas estas irão perambular pelas ruas não para fruir o espaço público e a convivência com outros seres humanos (como em uma pelada com os amigos, por exemplo). Mesmo na companhia de outros jogadores, como não há interação entre eles dentro do jogo, a diversão é essencialmente privada. O objetivo é colecionar monstrinhos cada vez mais fortes e mais raros e, com eles, dominar territórios. É intrinsecamente uma brincadeira de colecionador. Infelizmente, não como um colecionador que acumula preciosidades com o fim de poder publicizar seu tesouro, transformando-o em um bem coletivo (como é o caso de muitos museus que se iniciaram como coleções privadas ou da biblioteca de José Mindlin, por exemplo, hoje patrimônio de todos nós por meio da USP). É um colecionar narcísico que pode até ser bem divertido se fruído com parcimônia. Mas que, em doses mais elevadas, assemelha-se mais ao colecionismo de um acumulador.

 


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.