O que é um lobo solitário? (parte 2)

Conforme prometi na última coluna, hoje volto para completar a reflexão que iniciei sobre os chamados “lobos solitários”, ou seja, terroristas que mesmo sem vínculo direto com um grupo radical específico, realizam ataques em nome da ideologia que esse grupo representa.

Ao final do último texto, após questionarmos o fato das doenças mentais estarem sendo um dos fatores de explicação do comportamento terrorista, deixamos algumas perguntas no ar. Dissemos que mais difícil do que explicar por que uma ideologia radical qualquer conquista indivíduos excluídos de suas próprias comunidades de pertencimento é compreender por que nossa cultura ocidental tem tido dificuldades para manter essas mesmas pessoas em seu seio, como que “blindando-os” de serem recrutados por pensamentos que pregam nossa destruição.

Para pensar sobre essa questão, vou me valer de um texto de Slavoj Zizek, publicado em 12 de janeiro de 2015, logo após os atentados contra o Charlie Hebdo. Ainda que o referido ataque não tenha sido perpetrado por um “lobo solitário”, as reflexões de Zizek têm um alcance mais geral e nos ajudarão a entender o movimento social de fundo que está produzindo os “lobos solitários”.

Inicialmente, cabe ressaltar que Zizek percebe o crescimento do fundamentalismo islâmico como coincidente com a decadência do pensamento de esquerda nos países muçulmanos. Em outras palavras, conforme diminui a força de teorias e práticas que tentam fomentar alternativas a esse mundo, crescem as ideologias que querem simplesmente destruí-lo para impor outra coisa em seu lugar.

No plano individual, acho que acontece mais ou menos a mesma coisa. Nesse sentido, não é exatamente a exclusão social que produz “lobos solitários”. É a falta de possibilidades de se lutar contra isso de modo não violento. Eu explico.

Na clínica psicológica, por exemplo, é muito comum vermos operando o seguinte mecanismo: tudo aquilo que não conseguimos colocar em palavras, extravasamos em ações. No caso do terrorista, quando não somos capazes, enquanto sociedade, de direcionar os sentimentos negativos que o “lobo solitário” sente para formas de transformação da sociedade que os produz, o indivíduo volta-se para a violência. A destruição está, portanto, associada à falência das possibilidades de mudança social. Na cabeça do “lobo solitário” passa mais ou menos a seguinte ideia inconsciente: “Se não posso mudar essa sociedade que me machuca, eu vou destruí-la”.

Porém, essa necessidade de passar ao ato, prossegue Zizek, é reveladora de uma enorme insegurança do terrorista em relação à sua própria crença. Isso porque se sua fé fosse mesmo inabalável, ele pouco se importaria com quem não a segue. Mas, se o “lobo solitário” fica completamente transtornado com qualquer um que professe uma crença diferente da sua, no fundo isso revela que esses diferentes credos conseguem questionar a sua fé. E então, para reafirmá-la, principalmente para si mesmo, ele passa ao ato, matando e morrendo.

 


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.