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O que é um lobo solitário? (parte 1)

Por conta dos recentes atentados terroristas na Europa e nos Estados Unidos, muito se tem discutido sobre os chamados “lobos solitários”, pessoas que mesmo sem vinculação direta e formal com um determinado grupo terrorista, realizam ataques em nome dele. Foi assim no caso do massacre da boate gay em Orlando e no atentado com um caminhão em Nice. Quem eles são? Como alguém se transforma em um “lobo solitário”?

Em primeiro lugar, precisamos contextualizar melhor a ideia, muito veiculada atualmente, de que “lobos solitários” possuem algum tipo de doença mental. Um exemplo dessa abordagem é o texto de Liah Greenfeld, publicado no The New York Times em 15 de julho de 2016 e cujo título já é bastante claro em relação a isso: “Para combater o terrorismo, devemos enfrentar a doença mental” (tradução nossa).

O problema não está tanto no fato de que “a grande maioria dos atos de terror de lobos solitários são cometidos por pessoas com conhecida história de doença mental, mais frequentemente depressão, na qual se inclui desajustamento social e um senso problemático de si mesmo entre seus principais sintomas”. Isso até é verdade. A questão mais importante, contudo, é como esses indivíduos chegam a se sentir assim.

Ainda segundo Greenfeld, ao não conseguir explicar para si mesmos seu desconforto existencial, os “lobos solitários” se apropriam de ideologias hostis à sociedade na qual eles experienciam sua infelicidade, como uma forma de racionalizar seu sofrimento e atribuir a ele um sentido grandioso. Isso também me parece verdadeiro. Portanto, o problema não está no que o texto diz. Está no que não diz, pois quem termina de ler o artigo de Greenfeld fica com impressão de que tais atos terroristas se relacionam apenas a desequilíbrios individuais de quem os pratica. O problema aqui é como definimos os transtornos mentais: seriam eles produtos unicamente dos indivíduos que os manifestam ou produções sociais mais amplas, que respondem às demandas de seu tempo, e que, portanto, os indivíduos com transtornos mentais são porta-vozes de conflitos culturais aos quais muitos outros também estão submetidos?

O cuidado que precisamos tomar é o mesmo que a autora prescreve aos “lobos solitários”: não podemos nos apropriar de ideologias individualizantes como uma forma de racionalizar nosso desconforto existencial com o fato de “um dos nossos” se voltar tão raivosamente contra nós, atribuindo a esses atos um sentido que nos desvincula, enquanto sociedade, da própria produção desse fenômeno. Desse modo, a pergunta mais importante que se impõe a todos nós diante dos atos dos “lobos solitários” não é por que eles são seduzidos por ideologias que nos parecem bizarras. A indagação crucial aqui é por que nossa ideologia burguesa, ocidental, liberal e cristã não está conseguindo sensibilizá-los.

A resposta à pergunta de por que o islamismo radical é sedutor é relativamente fácil: ele promete pertencimento absoluto a pessoas excluídas de sua própria comunidade, ainda que esse pertencimento tenha também um preço absoluto a ser pago (a própria vida). Contudo, um sujeito vivendo uma vida miserável tem menos apego a ela do que outros mais bem identificados com sua sociedade de origem. Desse modo, trocar uma vida infeliz nesse mundo por outra de prazeres eternos no além parece-lhes um bom negócio.

Agora, explicar por que nossa cultura ocidental não consegue mais seduzir nossos próprios jovens é mais complicado. E por isso deixarei para dar continuidade a essas reflexões na próxima quinzena. Um abraço e até lá!


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.