Não se fazem mais liberais como antigamente

Chegamos a um ponto de tamanha hipocrisia no cenário político nacional que sinto a necessidade de simplesmente pedir coerência àqueles que se opõem às pautas que costumeiramente eu defendo e que considero corretas: pautas de esquerda, ligadas aos direitos humanos ou “progressistas”, ainda que esses nomes sejam todos, cada um a seu modo, um pouco reducionistas.

Também de maneira um tanto reducionista, esses oponentes são considerados liberais ou (palavra que virou quase um xingamento) neoliberais. Em teoria, liberais ou neoliberais seriam aqueles que defendem os valores ligados às liberdades individuais como sendo prioritários aos que propagam a maior igualdade entre todos. Consequentemente, são defensores de uma menor intervenção do Estado não só na economia, mas também na vida social como um todo. Para os liberais clássicos, a função do Estado seria a de garantir a propriedade e as liberdades individuais por meio de um aparato jurídico e de segurança e nada muito mais do que isso. Todo o resto deveria ficar a cargo do “mercado”.

Acontece que o Brasil, como disse Tom Jobim, não é para principiantes! Aqui tudo é um pouco diferente. Na área econômica, nossos liberais até dizem que defendem o Estado mínimo. Dizem, porque na hora da execução das políticas públicas não é bem assim: as montadoras de automóveis, por exemplo, não estão nem aí para Adam Smith quando querem a manutenção dos subsídios fiscais do governo. E a maior parte da sociedade civil também não liga, já que ninguém reclama que essa “bolsa-empresário” vai criar empresários preguiçosos e vagabundos, como alguns hipocritamente fazem quando se trata dos beneficiários do Bolsa-Família.

E em relação à reforma da previdência? Nossos liberais são liberais desde criancinha. Mas na hora de competir “livremente” com produtos importados, nossos industriais, jogando a “lei das vantagens comparativas” de David Ricardo para debaixo do tapete, defendem medidas protetivas e demandam do Estado adequação da taxa de juros. Por meio de suas entidades representativas como Fiesp até ajudam a derrubar presidentes quando não têm suas reinvindicações plenamente atendidas. Mas são os primeiros a defender a flexibilização das leis trabalhistas. Em outras palavras, nossos capitalistas querem liberalismo para o outro, nunca para eles próprios. Liberalismo bom é liberalismo aplicado aos pobres!

Mas essa não é uma coluna sobre economia. Então vamos ao que interessa mais diretamente a nós psicólogos. Como eu disse logo acima, tradicionalmente, o liberalismo não defende apenas a menor intervenção do Estado na economia. Defende-a também na vida social como um todo. É aquela ideia fundamental da primeira onda dos direitos humanos: para garantir as liberdades individuais, cabe ao Estado se ausentar de domínios tais como o da intimidade e sexualidade por exemplo, atuando somente em caso de violação de direitos. Acontece que os liberais brasileiros parecem que pularam essa parte nas suas supostas leituras de John Locke: na economia defendem uma ausência muito seletiva do Estado, mas no plano social, nem disfarçam: defendem sua presença total! E uma presença repressiva a todos os que pensam diferentes deles.

Então, se você faz uso de drogas, eles querem te internar à força. Se você deseja alguém do mesmo sexo, querem que psicólogos possam te oferecer a “cura” gay. E se você ainda ousar constituir família com alguém do mesmo sexo, você não vai poder casar. Na verdade, pelo novo Estatuto da Família que querem aprovar, nem família a sua família será. Se seus filhos forem para a escola, lá eles não vão poder aprender a respeitar a diversidade sexual, religiosa, enfim, qualquer diversidade. Ao contrário, ele vai receber um “kit bíblia” que ensina que homem é homem, mulher é mulher e que qualquer coisa diferente disso, Jesus considera pecado. Inclusive, eles vão aprender que Jesus é o caminho, a verdade e a vida e que, portanto, cultos afro-brasileiros, judaísmo, ateísmo, budismo e qualquer filosofia ou religião fora do cristianismo é pecado e, no limite, coisa do “demônio”. No Brasil, as coisas são tão às avessas que, nas eleições de 2014, o candidato que mais abertamente se dizia liberal era um pastor!

Diante de tamanha bagunça, o mínimo que eu espero de um opositor que se diga liberal, é que ele seja coerente. Se isso não ocorrer, ou o sujeito não tem a mínima ideia do que seja liberalismo e utiliza esse rótulo apenas para justificar seus preconceitos; ou é hipócrita mesmo e utiliza desse rótulo apenas para enganar os outros sobre quais são seus verdadeiros interesses escusos. A maioria dos liberais hoje, que vociferam seus preconceitos Facebook afora, acredito que se encaixam na primeira opção. Mas Fiesp, montadoras, banqueiros e políticos defensores do ajuste fiscal ou que misturam religião e política, eu não tenho dúvidas que se enquadram na segunda hipótese.

Por isso, psicólogos críticos do Brasil, uni-vos! Como profissionais que, para o bem ou para o mal, serão consultados a se posicionar sobre os temas que mencionei e outros mais, precisamos defender o aparentemente óbvio: na vida privada, queremos a menor gestão social possível. Desde que garantidos o respeito ao outro e o consentimento daqueles que eventualmente desejarem partilhar a vida íntima comigo, devo ter o direito de buscar livremente meus valores, pensamentos e prazeres. Por mais paradoxal que seja, nessa luta, precisamos ser mais liberais que nossos “liberais”!

 


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.