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Cultura do Estupro: os estupradores são monstros?

Há mais ou menos dois meses eu publiquei uma coluna aqui no PsiBr que tematizava a respeito de como os homens podem se tornar agressores de mulheres. Infelizmente, por conta do estupro coletivo ocorrido recentemente no Rio, sinto-me novamente na obrigação de abordar a violência de gênero e o impacto dela na Psicologia.

O que coloquei na referida coluna se aplica, em grande parte, ao caso ora em questão pois ali tematizo o papel da cultura machista na formação de subjetividades masculinas que violam os direitos das mulheres. Contudo, a brutalidade da violência perpetrada contra a adolescente carioca convoca a Psicologia a responder perguntas que normalmente não são colocadas em relação às agressões de “menor” potencial destrutivo, se é que posso assim denominar xingamentos, ameaças, tapas, chutes, etc. Afinal homens autores de violência contra a mulher são tão comuns que ninguém pergunta se eles são psiquicamente doentes.

Porém, essa é uma das primeiras questões colocadas a psicólogos quando estes foram chamados a discutir publicamente o estupro coletivo: os 33 homens que estupravam a adolescente no Rio de Janeiro possuem algum tipo de transtorno mental? Eles são psicopatas? Monstros incapazes de sentir qualquer empatia ou compaixão?

Se pensarmos na crueldade que esses homens foram capazes de realizar, sim, eles são monstros. Mas eles não são monstros se com isso quisermos significar que eles seriam um produto de algum modo desviante de nossa sociedade. Eu explico: tal como nos mostrou a Escola de Frankfurt de que o nazismo não foi um “ponto fora da curva” na história do capitalismo mas apenas a sua radicalização, o estuprador não é um ser desviante dos valores hegemônicos hoje em nossa sociedade machista. Ao contrário, ele é alguém que incorpora esses valores, radicaliza-os, e os leva às últimas consequências.

Com isso quero dizer o seguinte: a sociedade que aceita, por exemplo, que homens “embebedem” as mulheres em baladas para que elas fiquem “mais fáceis” é a mesma que produz estupradores em massa. A diferença entre esses comportamentos é de grau, de quantidade, mas a essência é absolutamente a mesma: a desconsideração da necessidade de consentimento da mulher em ações que envolvem sua própria sexualidade, algo que nasce da concepção da mulher como um ser inferior ao homem. Mesmo que inconscientemente, o jovem na balada pensa: “como a mulher é inferior, eu posso embriagá-la para torná-la mais vulnerável às minhas investidas”. Um estuprador pensa: “como a mulher é inferior, eu posso fazer sexo com ela mesmo contra a sua vontade”.

É claro que, como nem todo homem nascido em uma cultura machista se torna um estuprador, existem outras forças sociais e psicológicas em jogo na constituição de alguém capaz de tamanha opressão em relação a um outro ser humano. Mas o pano de fundo está lá e é a isso que se tem chamado como “cultura do estupro”. A maioria das pessoas, por conta de seus freios internos, vai incorporar esse caldo cultural que entende a mulher como um ser de segundo escalão e “apenas” pagar menos para ela em sua empresa, fazer piadinhas sexistas entre os amigos, deixar que somente sua esposa cuide da casa e dos filhos. Outros porém, ainda que em um número um pouco menor (mas ainda em um número infelizmente muito alto), partirão dessa cultura machista para tentar burlar o desejo da mulher em um conquista amorosa e, avançando um pouco mais na escala da dessubjetivação feminina, para agredir suas companheiras. E, por fim, alguns poucos (mas que fazem um estrago gigantesco), alimentarão seu sadismo com o mesmo machismo que propicia todas as atitudes anteriores e estuprarão esses seres considerados inferiores.

Quando se trata de estupro, devemos lembrar que esse é um comportamento no qual o que está em jogo não é o desejo, mas sim o poder. Ou melhor: o estuprador é alguém que goza com o abuso de alguém mais vulnerável que ele mesmo. É, portanto, alguém que deseja o poder que exerce sobre suas vítimas. O prazer nasce da destruição do outro. Nas cadeias, por exemplo, quem é estuprado não é quem é mais sexualmente desejável. Estupra-se o inimigo, para humilhá-lo. Foi assim que o estupro foi sempre utilizado como arma de guerra. No caso do estupro contra as mulheres, o sexo violento é uma forma de recoloca-las em posição de inferioridade e afirmar-se como macho superior.

Nesse sentido, os estupradores são doentes? Eles são os pacientes terminais de uma doença que a maioria de nós possui, uns em maior grau e outros em menor.

 


mathias glens homeMathias Vaiano Glens é psicólogo graduado pela USP e possui mestrado em políticas públicas para a infância e adolescência pela mesma universidade. Sua dissertação, “Órfãos de Pais Vivos: uma análise da política pública de abrigamento no Brasil” está disponível para download. Realizador desde 2016 do podcast Psicologiacast. Atualmente, é psicólogo do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. É palestrante nas áreas que envolvem Psicologia e Direitos Humanos e consultor/supervisor de instituições que trabalham na área social, inclusive realizando cursos e capacitações. Atua também na área clínica em consultório particular. Para acompanhar suas atualizações e publicações, siga-o no Twitter: @GlensMathias.