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Sobre estratégias para levar alguém a se tratar psicologicamente

Sabemos que é muito difícil levar alguém a se tratar. Se fosse uma doença física seria menos complicado, pois transformações no corpo seguidas de dor geram medo. O medo e a dor são excelentes aliados para adesão a um tratamento.

A resistência à psicoterapia começa antes de se lançar qualquer dispositivo terapêutico ou psiquiátrico, pois há mecanismos mentais que dispersam o sofrimento e a angústia. Quando se trata de dor psíquica os mais necessitados são os que menos percebem o próprio estado de ruína mental. Esse é um dos paradoxos de meu ofício. Quem mais precisa de análise não se trata, se defende, projeta, acusa, nega, se torna arrogante e prepotente – não aceita ajuda nem reconhece haver um mundo mental interno. Faz os outros sofrerem e sequer nota as próprias emoções e afetos. Quem tem boa dose de saúde mental está apto a perceber a importância de enfrentar o sofrimento numa análise.

Quando alguém se recusa a perceber a gravidade de sua própria situação mental, ocorre uma espécie de enlouquecimento familiar, por isso é importante frequentar sessões de terapia de família até que o doente identificado possa sentir a preocupação que os outros sentem por ele.

Para levar alguém a se tratar é fundamental despertar angústia, dor e medo, mas sem fazer terrorismo. É mais produtivo falar sobre as próprias aflições do que dizer o que o outro deve fazer. Pedir ajuda para entender o que acontece funciona melhor do que impor sua verdade. Procure tornar o outro um aliado na busca de entendimento da situação. Vá ao psiquiatra ou psicanalista primeiro, depois você poderá obrigá-lo a ir, desde que o leve pela mão, pois ele não consegue buscar ajuda por conta própria.

Essas são algumas estratégias para despertar a consciência e levar alguém a se tratar. Caso não resultem em nada peça orientação para um profissional. 

 


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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