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Por que os bebês choram?

Antigamente, acreditava-se que o choro de um bebê era expressão de manha e malandragem. Os manuais de pediatria indicavam deixar um bebê chorar até cansar. Naquela época não se compreendia o complexo mundo mental deles nem as delicadas interações com a mãe ou cuidador. Hoje sabemos que o bebê pequeno tem sentimentos intensos e diretos, sente angústia e frequentemente é tomado por terrores inomináveis. 

Chorar é uma forma de mitigar esses sentimentos ainda sem nome nem compreensão. O choro é um dos poucos meios de comunicação do início da vida. Mães e cuidadores dedicados logo aprendem a entender o choro de seus bebês estabelecendo formas de comunicação e de acolhimento.

Podemos dizer que há 5 motivos básicos para o choro dos bebês.

1 - Choro de satisfação: é um sinal de saúde e vigor semelhante ao prazer que temos em realizar atividades físicas. Esse choro proporciona alivio das tensões e é um método para lidar com a ansiedade e com a insegurança. Está ligado à parte motora do bebê, ao prazer do movimento, depois virá a fala, o andar e assim por diante.

2 - Choro de dor: é aquele que assusta. Desperta as pessoas para fazerem alguma coisa pelo bebê. Nessa categoria de choro há a apreensão: o bebê logo aprende, por exemplo, que quando sua mãe começa a despi-lo ele se tornará mais vulnerável ao frio. Já foi despido antes e marcas de memória das experiências já estão se instalando. Portanto, ele espera a dor e sofre por antecipação.  Perdeu a sensação de segurança, sente medo. O medo está na base do choro de dor.

3 - Choro de raiva: é o choro de quem perde a cabeça. Grita, esperneia, morde, arranha, cospe e vomita. Ele quer destruir tudo a sua volta e a si mesmo durante essa crise de fúria. Indica que ele é uma pessoa autêntica e que não perdeu a esperança para obter o que deseja. A mãe deve permanecer calma, não se desesperar, essa postura fortalece o bebê e demonstra que ele não destruiu nada com seus ataques, mas que suas reivindicações não são realistas.

4 – Choro de pesar e de culpa: é o choro da tristeza, acompanhada por lágrimas.  É expressão de arrependimento que aponta para a capacidade de gratidão. Esse choro expressa a vontade do bebê em ter boas relações com os seus familiares, é importante que a mãe o conforte fisicamente e que lhe dê garantia de amor. 

Há um quinto tipo de choro, mais raro, o de desamparo e desespero. Esse é um choro difícil de descrever dada a intensidade dos afetos nele contido e o poder de trazer à tona angústias de arrepiar até adultos corajosos. Indica o insucesso em prover continência psicológica para os terrores sem nome do bebê. Pouco importa se é decorrência de alguma dificuldade do bebê ou da mãe, não há culpados numa dupla. Portanto, se escutar esse choro com frequência não hesite em procurar ajuda psicológica para a dupla bebê/mãe.


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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