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Os sonhos

Não há quem não tenha um dia se intrigado com o sonhar. Desde a antiguidade o Homem procurou um sentido para essa capacidade humana, foi na passagem do século XIX para o XX que os sonhos ganharam uma interpretação psicológica. Freud entendeu que eram expressão psíquica de vivências emocionais e desejos proibidos. Em 1900 lançou seu mais famoso trabalho, intitulado a Interpretação dos Sonhos, obra que desvendou a vida onírica de forma científica e detalhada, mudando para sempre a concepção que temos sobre o sentido dos sonhos.

Os sonhos são vias nobres de acesso ao desconhecido de nós e formam um valioso patrimônio para o autoconhecimento. Enquanto dormimos, sofisticados processos trabalham imagens, sons, percepções difusas, nacos de ideias, de sensações e de sentimentos, tanto vindos do passado remoto como de experiências recentes - tudo isso está armazenado no inconsciente - e é transformado, condensado e deslocado pelo trabalho do sonho produzindo histórias, construindo cenas ou criando ideias em forma de imagens, podendo inclusive despertar fortes emoções à revelia e fora de nosso controle. Pois para o sonhador o sonho é vivência, ele não sabe, na maior parte das vezes, que está sonhando.

Os sonhos realizam desejos inconfessos, informam sobre o funcionamento psíquico, apontam conflitos e nos revelam. Alguns são claros, objetivos; outros, labirínticos e tortuosos. Na posição de sonhador nos revelamos crianças, artistas criativos ou nostálgicos de plantão. Muitas vezes somos tomados por um incrível bem-estar após acordarmos de um sonho vívido e bom, como se recuperássemos um tesouro perdido. Outras sofremos, atingidos por pesadelos angustiantes que produzem uma sensação de estranhamento e culpa.

Há os sonhos recorrentes, que apontam para a necessidade de elaboração, indicam que é preciso pensar os temas neles contidos e relacioná-los com nosso mundo interno. Para os psicanalistas há sentidos nos sonhos, mas, não há símbolos fixos funcionando como chaves de fácil e pronta compreensão para os enigmas neles propostos.

O sonhar é considerado uma função saudável do psiquismo, indica que há produção de símbolos capazes de expressar vivências e sentimentos. Os psicanalistas se preocupam mais quando os sonhos não ocorrem ou nem são lembrados, o que indica dificuldade no contato com o próprio mundo interno e impossibilidade de elaborar e expressar vivências emocionais.

 


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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