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O sentimento de solidão

Não me refiro à situação objetiva de estar sem companhia, sem parentes, amigos ou familiares, refiro-me ao fato de que, muitas vezes, estamos rodeados de pessoas, no entanto, prevalece um sentimento interior de solidão. Podemos nos sentir sós mesmo quando estamos entre amigos e até mesmo quando recebemos amor.

É possível que esse sentimento de solidão seja resultante de uma ânsia por viver um relacionamento perfeito e inalcançável. E nos remete aos primeiros meses de vida, quando houve uma comunicação íntima, direta, como se fosse de inconsciente para inconsciente com a mãe ou cuidadores amorosos e compreensíveis.

Parece ser esse o alicerce pré-verbal para a vivência adulta de ser compreendido e compreender.

A compreensão imediata, sem palavras, absoluta, permanece como resto desses primeiros tempos da vida e se torna um desejo incessante a partir da infância. Por mais gratificante e prazeroso que seja expressar pensamentos e sentimentos para alguém com quem temos afinidade e correspondência, ainda esperamos encontrar um tipo de comunicação quase mágica.

Cuidado com o que deseja, pois esse anseio, aumenta o sentimento de solidão e pode elevá-lo às alturas. Melhor seria se conformar com o trabalho que a comunicação exige e acreditar que a torre de babel faz parte da aventura de viver.

 


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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