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O processo autoritário e a cura gay

A sexualidade humana esteve encoberta por preconceitos religiosos ao longo de séculos, e se tornou objeto de estudo científico apenas no final do século XIX. Durante o século XX muitas investigações acerca dos componentes, das finalidades e objetos envolvidos na vida sexual dos seres humanos foram realizadas. Hoje, no início do século XXI, temos um acúmulo sólido de conhecimento, facilidade em obter informações, pesquisas realizadas por diferentes métodos e estudiosos livres de preconceitos que se dedicam ao tema.

A psicanálise teve um papel pioneiro no estudo da nossa vida sexual ao perceber que a sexualidade não era como uma peça teatral realizada em um só ato nem se iniciava apenas na adolescência - havia uma preparação longa, desde a tenra infância, marcada por um jogo complexo de influências. A escolha dos objetos sexuais, a orientação sexual e a própria formação do gênero não se davam a priori da experiência e da história pessoal nem eram tão rígidas e demarcadas pela biologia como se supunha. É o caso de muitos adultos, mulheres e homens, que não se enquadram em categorias como as de hetero ou homossexual, são os bissexuais. Mas, é também uma questão de plasticidade da própria sexualidade, pois se colocarmos numa situação de isolamento, por um período de tempo, um grupo de homens heterossexuais (ou de mulheres) haverá, com certeza, relações sexuais entre eles. Portanto, não é possível categorizar com rigidez a orientação sexual nem mesmo evitar prolongadamente, por meio de qualquer técnica de treinamento comportamental, algumas das suas manifestações.

Outro aspecto interessante sobre os estudos realizados em psicanálise é que dificilmente temos êxito em delimitar o que é sexual e o que não pertence a essa área. A sexualidade se derrama pela identidade e se dá a conhecer quando travestida de desejo. Qualquer tratamento psicológico deve levar em consideração a existência de fronteiras móveis, permeáveis e, por vezes, em conflito entre desejo, identidade e sexualidade - esses aspectos estão em constante transformação e não se congelam no tempo. Aos terapeutas compete escutar o conjunto e as partes, a estranheza e o assombro, conferir-lhes palavras e sentidos, aqui e agora.

Portanto, falar em cura gay parece no mínimo anacronismo. Sem dúvida é um apego apaixonado à mentira, e com certeza, uma postura ideológica e religiosa que reedita antigas perseguições em nome de um processo autoritário, caracterizado pela negação dos vínculos entre ideias e fatos, indiferente às argumentações e às mediações que procuram elucidar a origem das ideias e dos fatos. Usa-se uma lógica emocional que coage coisas e pessoas em lugar de conhecer suas razões particulares.

Em psicanálise falamos que curar equivale a cuidar do desejo. Cuidar do próprio desejo é a única cura possível. Cuidar não significa jamais reprimir.

 


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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