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O inconsciente e a Psicanálise

A Psicanálise nasceu no fim do século XIX. Naquele tempo havia um grande número de pessoas sofrendo de uma doença chamada histeria, um verdadeiro mistério para a Medicina, que não encontrava nenhuma causa concreta que a justificasse e nenhum tratamento eficaz.

Mulheres, principalmente, mas também homens sofriam com essa doença incapacitante, sem base neurológica, produzindo estranhas paralisias, analgesias e ataques motores – ocorria sem motivo aparente. Anestesia de partes do corpo que não combinavam com os conhecimentos sobre a rede neuronal. Ataques nervosos que imitavam convulsões, mas que não tinham base na fisiologia. Desmaios, perdas de voz e até perda da possibilidade de falar a própria língua de origem, que era substituída por outra, faziam parte dos sinais correntes dessa estranha enfermidade. A histeria caracterizava-se por apresentar sintomas que se pareciam com doenças, mas não eram doenças orgânicas, pois não tinham base material. Ela confirmava a expectativa da medicina da época sobre a enorme fragilidade da mulher – uma eterna doente.

Os médicos descobriram que era possível influenciar esses enfermos por meio da hipnose. O hipnotizador provocava um estado de rebaixamento da consciência e sugeria comportamentos sui generis ao hipnotizado, que aceitava prontamente as ordens. Depois, quando acordado, ele não se lembrava do que havia feito. Essa era a prova de existência de outro estado da mente, um estado que produzia comportamentos e pensamentos, mas que se encontrava fora da vigília. O doente não tinha acesso a essa parte de si próprio que podia causar uma série de transtornos ou comportamentos inusuais e até mesmo perigosos.

O inconsciente então se tornou um termo usado na medicina, deixando de ocupar apenas as páginas dos livros de filosofia e literatura. No início foi entendido como um grande causador de distúrbios. Mais tarde foi compreendido como um aspecto muito importante do funcionamento mental de todos nós. Aspecto mais evidente nos sonhos, nos atos falhos, nos sintomas neuróticos e psicóticos, dominando parte considerável de nossa vida mental e atuando incessantemente, embora de forma pouco observável, na vida cotidiana.

Sofrimentos originados na mente, em sua parte inconsciente, levaram a um tratamento novo, onde a palavra funcionaria como elemento de ligação entre dois tipos de funcionamento, o consciente e o inconsciente. A cura pelas palavras para as dores da alma, poeticamente falando.

Os primeiros “doutores da alma” perceberam que os pacientes sentiam alívio ao falarem de suas angústias, medos e desejos. Num ambiente protegido pelo segredo profissional era possível dizer e escutar o que socialmente seria censurado, o que ninguém mais poderia saber, o que não suportamos ouvir.

A psicanálise nasceu da necessidade de dar expressão aos sentimentos sufocados. Transformar os restos informes de nossa fala em material pleno de sentido. A cura dos sintomas está ligada a possibilidade de dar forma a vivencias ora presentes, ora perdidas no tempo. Colocar em palavras as experiências, muitas vezes, sequer imaginadas. Aumentar o patrimônio de conhecimento sobre si e se conhecer de outra maneira.

Já, naquela época, existia quem fosse contra e quem fosse a favor. Hoje, mais de 100 anos depois, ainda há quem resista a pensar que as análises podem e devem ser usadas por pessoas que sofrem, que se encontram confusas, que estão bastante entristecidas e desesperançadas ou que não reconhecem seus próprios sentimentos e sensações.

Ainda há quem acredite que psicanálise é coisa de louco, para pessoas desajustadas, fracas ou incapazes de resolver seus problemas por conta própria. Esses preconceitos não excluem o fato da análise ser um tratamento recomendável e eficaz para quem esteja passando por alguma turbulência, para quem sofre os sofrimentos comuns da vida, para quem sempre repete os mesmos erros, para quem precisa de compreensão e para quem necessita se conhecer melhor. Para quem gosta de aventura uma análise pode ser igualada a uma viagem sem mapa nem destino – o caminho e o caminhar se tornam mais interessantes que a chegada.


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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