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Neurose de destino

Há pessoas que vivem perseguidas por um destino funesto - como se houvesse uma força demoníaca marcando sua existência. Falamos de uma crença em algum tipo de fracasso ou sofrimento que, antecipadamente, modela o futuro.

Benfeitores que acreditam que sempre serão pagos com a ingratidão. Amigos constantemente traídos. Mulheres mal amadas ou usadas continuamente, porque estão destinadas a se apaixonarem pelos homens errados. Pessoas que têm certeza que nunca terão sucesso nos negócios, apesar dos esforços ou que não se sairão bem nos estudos.

Acreditam que a qualquer momento, a vida lhes dará uma rasteira. Vivem com medo do dia em que essas fantasias se realizarão. Fantasias alimentadas por episódios cotidianos ou excepcionais, que se repetem, e confirmam a expectativa de ruína.

Quando a ruína se concretiza, falam: bem que eu sabia que isso ia acontecer ou não nasci para isso, eu sabia! De novo? De novo!

Mas não chegam, exatamente, a se surpreenderem com o fracasso ou infelicidade, sentem alivio, pois o destino se cumpriu conforme o mandamento interior.

É de se perguntar o quanto crenças e fantasias tão arraigadas contribuem para a repetição do destino funesto. Quem sempre espera, acaba por alcançar, diria o senso comum. Pode ser verdade. A Psicanálise nos ensina que o medo do êxito é poderoso, é influenciado pelo sentimento de culpa inconsciente que exige punição e castigo e, muitas vezes, sobrepuja o desejo de sucesso, nos lançando em direção a repetição compulsiva do que causa dor.

 


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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