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Educação para a morte

Sabia que minha avó estava doente. Era uma doença sem cura. Tremia em pensar, mas pensava, na morte tenebrosa que a vovó teria - a paralisia das pernas subindo lentamente até o peito e ela sufocada. A brutalidade da ideia de morrer sem conseguir respirar vinha acompanhada de um gesto, eu apertava meu pescoço e dava um grito curto, curto e forte. Depois pensava socorro! Será que ela sofreria? Coitada. Já sofria muito, deitada na cama, sem poder andar, com as pernas esclerosadas, com a esclerose subindo até os pulmões e dominando o coração que bateria lento, cada vez mais lento, até parar. Mesmo doente mudou de casa e foi morar num apartamento grande, lamentei a mudança, a casa onde morava tinha galinha e coelho no jardim, tinha parreira também, mas não dava uva, servia para fazer charutinho com folhas macias de uva de charutinho. No mundo havia parreira que dava folha de uva e parreira que dava uva!

Aprendi também com minha avó o significado da palavra corrupção. Ela me convenceu a aceitar a mudança de casa em troca de uma cadeira baixinha que seria só minha no novo apartamento. Criança se vende fácil, me vendi, mas não fiquei contente, pensei em desfazer o trato, embora soubesse ser impossível, ela já estava no novo apartamento, era melhor faturar a cadeira do que ficar de mãos vazias. Jurava para mim mesma que jamais faria outra troca besta como aquela. Ela também me comprou com sucrilhos. Para que fazer crianças aceitarem coisas que não dependem delas? Tanto fazia aceitar ou não o apartamento, ele já era realidade e a casa, o jardim e a parreira, passados.

Minha avó, ela nunca soube disso, foi quem me deu a chance de fazer a primeira coisa adulta de minha vida – ela me deixou fritar kibes sozinha, colocou a escumadeira em minha mão, morri de medo, segurei no cabo da frigideira, morri de medo, e aguardei uns minutos para virar os kibes, até que estivessem fritos por inteiro. Considero fritar kibes, até hoje, meu maior feito. Agradeço a ela esse grande momento de potência, e principalmente, de confiança – sim ela confiara em mim, eu não iria decepcioná-la – meus pais não confiavam em mim, jamais acreditariam que eu fosse capaz de fritar kibes, de aguardar a hora de virá-los na frigideira, de virá-los sem machucar a camada de carne moída e trigo que fica do lado de fora e esconde a carne moída com snobar que mora sozinha dentro dele, sem me queimar. Naquela manhã umas gotinhas de óleo pelando pularam na minha mão, mas não contei a ninguém com medo de me proibirem, caso tivesse a chance de fritar kibes novamente.

Um pouco antes de irmos para a escola, estava no segundo ano do primário e adorava a professora, tia Cecilia, vi flores e mais flores brancas chegando em casa. Hoje sei que eram coroas de flores, na época eram flores brancas, muitas, dispostas em formatos diferentes. Minha mãe apareceu super bem vestida para um dia de escola antes do almoço, estranhei. Me lembro de ter perguntado sobre a minha avó. Ela negou. Nada, não acontecia nada, nenhuma novidade, nenhuma morte. Fui ressabiada para a escola, mas acreditei em minha mãe, que motivo teria ela para mentir?

Na classe tudo estava como antes, como sempre esteve. A minha casa estava diferente, muitas flores, mas não aconteceu nada, nada de novo, segundo minha mãe. Já me preparava para tirar da mala o estojo, quando uma colega de quem gostava bastante, Silvia, me perguntou em voz alta, todos escutaram, o que eu fazia na escola, pois minha avó havia morrido. Fiquei atônita, sim, minha avó havia morrido, coitada; fiquei furiosa com minha mãe, como teve coragem de mentir e de me enganar numa hora dessas, mesmo eu perguntando sobre a morte de minha avó, mentiu na cara, na cara mais dura do universo! Traíra. O tipo de pessoa que não dá para confiar. Caí num choro que vinha lá de não sei da onde, um choro profundo, forte e longo, pois lágrimas pulavam dos meus olhos, rolavam na camisa da escola. Tia Cecilia, me colocou no colo e por duas horas chorei sem palavras, chorei e chorei. A camisa estava molhada, a saia de pregas cinzas também. Chorei de raiva, chorei de ódio, chorei de humilhação de saber que a amiga da escola sabia mais sobre mim do que eu, sabia mais sobre minha família do que eu, a mãe dela era melhor que a minha, a mãe dela não teve medo de falar a verdade, a mãe dela confiou nela, confiou que ela poderia aguentar a morte. Chorei pela avó morta, pelos kibes que nunca mais fritaria. Chorei de susto, chorei porque estava sozinha na hora de receber a notícia mais importante da minha vida até aquele momento, minha avó estava morta, chorei, e talvez eu nunca recebesse a cadeira que ela havia me dado em troca de aceitar sua ida para o apartamento, chorei.

Ao chegar em casa no fim do dia, não me lembro se ainda havia vestígios do velório na sala, perguntei a minha mãe por que ela havia mentido, contei que soube da pior forma possível, perguntei se ela acreditava mesmo que eu, aos 8 anos, não sabia que a morte existia. Pois, ela que soubesse que todo mundo sabe, desde pequeno, muito pequeno, que a morte existe sim, uma verdade banal. Ninguém tinha o direito de me esconder a morte da minha avó! E que dali em diante ela não poderia mentir sobre a morte, nunca mais, porque eu já era capaz de fritar kibes sem me queimar!

 


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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