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Desamparo e amor

O bebê humano tem sua existência intrauterina relativamente abreviada, se compararmos com a maioria dos animais; ao nascer está menos acabado e se revela totalmente impotente para empreender qualquer ação eficaz ou coordenada, por isso precisa de muitos cuidados — no início da vida e por um longo período é dependente da mãe ou de alguém para sobreviver. Essa condição é chamada de: estado de desamparo.

O estado de desamparo é o protótipo de todas as situações traumáticas. Ou seja, nos sentimos arremessados a essa terrível condição de impotência e terror quando somos ameaçados pelas perdas da saúde e da vida ou quando as separações amorosas se concretizam. Quando amamos e nos sentimos amados criamos uma proteção, um antidoto, para o desamparo. O amor é o protótipo da segurança.

Deixar de ser amado, perder um ente querido, ser abandonado – situações que fazem a nossa impotência aflorar — são acontecimentos dolorosos que recriam o desamparo original. É como se fossemos remetidos aos tempos em que não tínhamos recursos para sobreviver, quando imperava a angústia e o desespero, pois éramos dependentes e incapazes.

Nos momentos de ruptura e trauma corremos perigo, há um aumento das ideias de suicídio e morte para fugir da dor do desamparo. Passado um tempo de desequilíbrio e sofrimento é comum recobrarmos a capacidade de seguir em frente.

 


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC—SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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