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Amor de mãe pode sufocar

O caráter indefeso da criança e sua grande necessidade de cuidado exigem da mãe muito amor e dedicação. Em contrapartida é possível que a mãe desenvolva um tipo de amor sufocante. O enorme prazer de ter um filho e a satisfação que sentimos enquanto os criamos contribuem para desejarmos que essa fase da vida se eternize. O tempo congelado num momento de enorme satisfação e amor mútuo entre mãe e bebê traz sérios perigos para o desenvolvimento da criança.

Seja por carência, seja por excesso de prazer na relação com o filho, algumas mães tendem a explorar essa relação em benefício próprio, para gratificar o desejo de ter alguém totalmente dependente de si. Mimam e cuidam de seus filhos para que não desenvolvam autonomia, para se tornarem presos a ela. Detestam qualquer sinal de crescimento e individualidade - o que está em jogo é um tipo de amor possessivo e controlador, que não incentiva um comportamento curioso em relação ao mundo. Nem reforça atitudes independentes da criança. Essas mães precisam que seus filhos se tornem mais dependentes do que o necessário. E, muitas vezes, se utilizam do medo ou da gratificação excessiva para podarem qualquer desejo de crescimento e independência.

Podemos dizer que uma situação perigosa tanto para a mãe como para o filho está sendo consolidada quando a preocupação primordial e exclusiva da mãe gira em torno do bem estar do filho; quando sua satisfação pessoal ocorre apenas por estar ligada aos cuidados dispendidos a ele; quando nenhum outro interesse se sobrepõe ao interesse de estar com a criança. Situação que muitas vezes promove o adoecimento psíquico do filho ou sua infantilização e dependência.

Essas mães não percebem que preparam uma grande armadilha para o futuro daqueles que mais amam.


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Luciana Saddi é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP), mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e autora dos livros de ficção O amor leva a um liquidificador  (Ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro  (Ed. Jaboticaba).  Assinou por mais de dois anos a coluna Fale com Ela na "Revista da Folha", do jornal Folha de São Paulo. Representante do Endangered Bodies no Brasil.
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